E Glutamina serve pra que mesmo?
A Glutamina é um dos aminoácidos codificados pelo código genético, sendo portanto um dos componentes das proteínas dos seres vivos.
A glutamina é o aminoácido livre e é mais abundante no tecido muscular. Além de actuar como nutriente (energético) para as células imunológicas, a glutamina apresenta uma importante função anabólica promovendo o crescimento muscular. Este efeito pode estar associado à sua capacidade de captar água para o meio intracelular, o que estimula assim a síntese protéica.
Glutamina é um aminoácido não essencial, sintetizado a partir das
necessidades corporais sendo a forma mais abundante de aminoácido
encontrada no corpo. Sua síntese é feita a partir do ácido glutâmico (a
glutamina é a amida do ácido glutâmico), valina e isoleucina (Bill Philip, 1997).
O metabolismo da glutamina acontece através de uma única reação
catalisada por duas enzimas. A glutamina sintetase catalisa a síntese de
glutamina fazendo a interação de glutamato e amônia, e a glutaminase
faz a reação inversa. A direção e os valores destas reações é que vão
determinar se o tecido é consumidor ou produtor de glutamina. A
quantidade de enzima é um fator determinante da produção e consumação,
como por exemplo os músculos esqueléticos que são considerados
produtores pois possuem pouca glutaminase (Rowbottom, 1996 e Walsh, 1998).
Sua síntese acontece primariamente nos músculos, mas também nos
pulmões, fígado, cérebro e possivelmente no tecido adiposo (Rowbottom, 1996).
Os rins, células do sistema imune e tracto gastrointestinal consomem-na
enquanto o fígado é o único órgão que tanto consome como produz. Sob
algumas condições, como uma reduzida oferta de carboidratos, o fígado
pode se tornar um consumidor de glutamina (Walsh, 1998 e Rowbottom,
1996). É importante citar que em alguns estados corporais como o
estresse, injúrias, desgastes e etc., alguns órgãos corporais necessitam
de uma demanda muito maior de glutamina, o que pode não ser possível
apenas pela síntese corporal. Partindo desse ponto percebe-se, em alguns
casos, a necessidade de administrar doses extras de glutamina.
Funções
A glutamina exerce funções muito importantes para o corpo, que são:
(a) manutenção do sistema imunológico; (b) equilíbrio do balanço
ácido/básico durante estado de acidose; (c) possível reguladora da
síntese e da degradação de proteínas; (d) controle do volume celular;
(e) desintoxicação corporal do nitrogênio e da amônia; (f) controle
entre o catabolismo e anabolismo; (g) no combate à síndrome do
overtraining (OTS); (h) precursor de nitrogênio para a síntese de
nucleotídeos.
Duas particularidades importantes da glutamina são a sua capacidade
de promover uma liberação extra de hormônios e a presença de dois
radicais amina em sua cadeia carbônica (Bill Phillips, 1997).
Para alguns nutricionistas, a glutamina não é considerada como "não
essencial" devido a sua grande importância tanto para a síntese dos
demais aminoácidos quanto para a manutenção da homeostase de vários
tecidos durante estados catabólicos (Rowbottom, 1996; Bill Phillips,
1997; Walsh, 1998).
Síntese de aminoácidos
A síntese dos aminoácidos se dá devido a capacidade da glutamina de
doar um radical amina de sua cadeia para a formação de outros
aminoácidos. Assim, a glutamina possui um papel importante na
gliconeogênese ao participar do ciclo alanina-glicose. No músculo, o
ácido pirúvico recebe um radical amina do ácido glutâmico (derivado da
glutamina) e formará a alanina que por sua vez será transportada para o
fígado onde após sua desaminação (perda de NH2), produzirá glicose
(McArdle, 1998).
Controle do pH sanguíneo
O controle do balanço ácido/ básico é importante para que o pH
sangüíneo varie somente entre 7.35 e 7.45 e é executado pela glutamina
de várias formas. Além de fornecer a nutrição adequada dos rins para
promover a liberação de H+, ela atua diretamente nesse processo. A
quebra de glutamina nos túbulos distais é um caminho primário para se
aumentar a quantidade de amônia renal. O H+ em excesso não é capaz de
ser excretado sozinho pela urina, então ele se junta a amônia formando
um íon de amônia que em combinação com um ânion, geralmente o
clorídrico, pode ser excretado pela urina. A outra maneira seria o
aumento na produção de íons bicarbonato pela oxidação dos carbonos das
cadeias de glutamina. O bicarbonato seria lançado para a corrente
sangüínea e tamponaria o H+ excedente (Rowbotton, 1996).
Referente à síntese muscular (anabolismo) a glutamina atua fazendo o
transporte do nitrogênio para a formação de grande parte dos aminoácidos
corporais. Além disto, ela atua como precursora de nitrogênio para a
formação de nucleotídeos, atuando na sua formação.
Glutamina e Sistema Imune
Após atividades físicas de grande estresse, a quantidade de células
fagocitárias do sistema imune fica muito diminuída podendo pré-dispor os
atletas à infecções oportunistas. Supõem-se que a glutamina ajude a
controlar esse desequilíbrio. A glutamina é usada como energia pelas
células do sistema imune para formação de anticorpos e, durante o
período de ataque de corpos patogênicos (estranhos), é utilizada como
combustível direto paras as células do sistema imune se duplicarem
(Robottom, 1996). Ela também atua indiretamente na duplicação das
células do sistema imune através da síntese de nucleotídeos. Seguindo o
pensamento anterior da produção de RNA e DNA, o aumento de nucleotídeos
aumenta a possibilidade de duplicação do DNA intranuclear, o que
facilita a divisão celular (Guyton 1989), proporcionando uma eficiente
duplicação das células fagocitárias ante ao perigo iminente. Bill
Phillips (1997) chegou a propor uma suplementação de RNA junto com
glutamina (que é um precursor de RNA). Estudos mostraram que a
suplementação de RNA aumentou a função imunológica, especialmente em
pacientes com alto estresse metabólico (Bill Philip, 1997). O potencial
de fagocitose das células imunes é bem maior quando o nível de glutamina
plasmática está normal (Walsch, 1998). Os linfócitos possuem alta
atividade da enzima glutaminase e baixa da glutamina sintetase, isto faz
com que as células do sistema imunológico dependam da glutamina
plasmática para seu metabolismo. Assim, uma queda no nível plasmático de
glutamina, como em exercícios prolongados, poderia causar uma baixa na
função imune, uma comprometida resposta aos perigos imunológicos e um
alto risco de infecção (Rowbotton, 1996).
Voltando à glutamina, chegamos no ponto que talvez mais interesse aos
atletas, sua função como minimizadora dos efeitos da síndrome do
overtrainning (OTS). O que é a OTS? Ela pode ser definida como uma
fadiga prolongada presente após atividades muito rigorosas, períodos de
treinos muito pesados e descansos insuficientes ou incompletos, levando a
uma incidência maior de infecções nesses períodos. Testes onde se
comparou a concentração de glutamina plasmática em dois grupos, um com
os sintomas da síndrome e o outro sem os mesmos, apresentou síndrome,
503 micromol/L, e 550 micromol/L sem a síndrome. Essa maior incidência
de infecções relacionada com a diminuição nos níveis de glutamina
plasmáticos tem relação com uma queda na imunidade e a translocação de
vírus e bactérias no intestino. Com relação ao intestino chegou-se a
conclusão de que um nível mais adequado de glutamina fará a manutenção
da integridade da barreira física do intestino impedindo invasões de
bactérias e vírus. O trato gastrointestinal é reconhecido como um dos
maiores consumidores de glutamina, contabilizando 40 % de toda glutamina
utilizada pelo corpo. Já com relação a baixa na imunidade, um teste
feito por NIEMAN, buscava verificar quanto tempo após a atividade esse
nível de células fagocitárias (Natural Killer) voltaria ao normal.
Chegou-se a conclusão de que após 30 minutos isso aconteceria, o que não
ocorre com os níveis de glutamina podendo demorar mais de 7 horas.
Recentemente, mudanças na taxa de oxidação de glutamina após o
exercício, vêm sendo ligadas às mudanças na circulação das células NK
(Rowbotton, 1996). Essa relação feita da OTS com a queda nos níveis de
glutamina surgiu posteriormente aos testes que concluíram que durante a
atividade de endurance esses níveis tinham um pico acompanhado por uma
queda na reserva de glutamina muscular, e após a mesma ocorria uma
diminuição brusca que perdurava por várias horas. Isso corrobora os
trabalhos que colocavam uma maior demanda de glutamina exercida por
órgãos corporais como o fígado, os rins, pâncreas, intestino e etc.,
durante as atividades fazendo sua remoção dos músculos, cérebro e
pulmões (Rowbotton, 1996 e Walsh, 1998).
Desintoxicação de nitrogênio
A desintoxicação corporal do nitrogênio é feita a partir do
carreamento exercido pela glutamina desse nitrogênio livre até o fígado
onde será transformado em uréia e depois excretado na urina, impedindo
que venha a formar a amônia. O corpo necessita de nitrogênio mas esse
nitrogênio livre poderá formar amônia, que é tóxico para o corpo,
principalmente para os tecidos cerebrais (Rowbottom, 1996 e Balch &
Balch, 1997).
Cérebro
O cérebro também é considerado um produtor de glutamina,
principalmente pela necessidade de desintoxicação cerebral da acumulação
de amônia. Entretanto, a glutamina também é um importante precursor
para a síntese de glutamato e do ácido g-aminobutílico (GABA), que são
vistos como neurotransmissores excitadores e inibidores do cérebro,
respectivamente. Consequentemente, a glutamina poderá ter um papel a
desempenhar em nível cerebral.
Como já foi dito, a glutamina é o aminoácido em maior abundância no
corpo humano e é capaz de passar pela barreira hematoencefálica o que
faz com que ela exerça uma função importante para o cérebro. Ao chegar
ao cérebro, a glutamina é logo convertida em ácido glutâmico que irá
aumentar a quantidade do gaba "in loco". Posteriormente, o ácido
glutâmico irá captar uma molécula de amônia sintetizando novamente a
glutamina que fará a desintoxicação cerebral pela amônia.
Importância
Seriam indiscutíveis, segundo as pesquisas, os efeitos gerados pelas
variações dos níveis de glutamina plasmáticos, tais como: o controle do
catabolismo muscular; manutenção do balanço ácido/básico; diminuição dos
sintomas da OTS; e outros já mencionados à cima. Mas o ponto chave de
todas essas descobertas é a quantidade ideal de sua administração para
que ela exerça seus efeitos de forma a alcançar maiores benefícios
possíveis. Mesmo sem termos até hoje nenhum trabalho que comprove
malefícios causados por uma possível hiperdosagem, essa possibilidade
não deve ser descartada. Um cuidado precioso a ser tomado pode ser o
controle dos produtos usualmente administrados de forma paralela, pois
vários desses produtos à venda, apresentam em sua composição níveis
razoáveis de glutamina podendo dessa forma, se ignorados, causar uma
administração maior do que a esperada. Exemplos desses produtos são: o
Super Glu, Acetabolan, Betagen, CytoVol, Whey Protein e etc.
Outra colocação que nós não poderíamos deixar de fazer é sobre o
papel da glutamina na manutenção das células fagocitárias do sistema
imune (Natural Killer). Pode parecer um pouco contraditório a colocação
dessa manutenção já que os níveis de glutamina plasmática após a
atividade só voltam ao normal depois de horas de recuperação, enquanto a
concentração de N.K. se normaliza em 30 minutos (Rowbottom, 1997).
Entretanto, possivelmente esse nível subnormal de glutamina pode se dar
devido ao seu uso para a manutenção adequada dessas células e de outras
funções corporais, durante o período de recuperação pós-exercício.



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